Uma mãe completamente atormentada pela perda de sua filha / Hereditario



Sinopse - Hereditary 2018
Uma mãe completamente atormentada pela perda de sua filha recorre ao auxílio de uma invocação do seu espírito para seu consolo. Depois de perder sua mãe, Annie precisa lidar com as lembranças deixadas por ela e em pouco tempo ela perde também sua filha, Charlie. Toda a família Graham é absorvida por um luto interminável e as heranças começam a se manifestar. Esse filme prende completamente pela narrativa a qual vai se desenvolvendo a partir e sob sofrimentos. As cenas das mortes são impactantes assim como a apresentação da seita e manifestação do mal.

Um Breve ensaio sobre A Perda em Hereditário

O filme narra de forma esplêndida a negação da perda, a maior perda que há, a mais injusta. Annie perde sua pequena Charlie e o vazio toma conta de seu coração, ela se recusa a aceitar a morte prematura de sua filha. Quem poderia julgá-la? A falta de compreensão diante da dor nos leva a dores maiores ainda, não que possamos aceitar a dor de perder, sabemos o quão difícil é sempre, mas quando nos negamos a aceitar pode ser ainda pior. Annie tenta invocar a presença de sua filha através de um ritual, mas não é ela quem volta e sim um espírito do mal. A maldição que assombra a família é hereditária em si, mas precisava ser invocada para que pudesse agir entre eles. Ao invocar indevidamente o espírito da filha, ela condena a todos, seu marido, seu filho e a si própria.

Por mais dolorosa que seja uma perda, sob todos os ângulos da vida, o melhor a ser feito sempre é deixar ir. Todos nós já sofremos por alguma perda e sabemos o quão libertador é quando deixamos a vida seguir seu fluxo natural. Isso torna mais fácil a situação?! Rsrsrs. Muitas vezes nos vemos em uma postura de "devermos" brigar por uma pessoa, emprego, posição, mas tudo isso parece muitas vezes ter um destino certo e não parece depender do que façamos nos últimos instantes para alcançarmos aquele lugar. Não estou falando com isso sobre nos acomodarmos, nunca devemos nos acomodar, mas entendermos que nem tudo começa diante dos nossos olhos, muitas vezes quando olhamos para alguém e encontramos sucesso, encontramos também uma estrada, tudo é de acordo com o que se construiu. Levamos tanto tempo buscando nossos objetivos que quando encontramos parece nem fazer sentido, parece ter perdido o valor pelo meio do caminho.


A perda de um filho é a pior perda, aqui é o extremo citado, mas posso encaixar a situação de perda em outros cenários da minha vida para não esperar o extremo me trazer essa lição. Aceitar a perda não é ser passivo na vida, mas deixar seguir o fluxo natural, entendermos que não estamos no controle da vida e mais aproveitarmos e agradecer pelo que temos. Às vezes, só agradecemos pelo que temos quando já estamos perdendo. Às vezes vivemos no futuro e não no presente. Deixar partir é uma lição necessária, libertar. Eu também vou, quero ser livre, quero que me deixe ir. O amor liberta, a verdade liberta. A dificuldade em seguir o ritmo natural dando fluidez está no egoísmo, em uma falta de habilidade e em falta de compreensão. A perda coloca em destaque nossa limitação diante da vida.

Hereditário foi citado como um filme assustador, em
Na Things Hunter, já falamos também sobre Midsommar, analisando

Não dá pra seguir em frente se você não se libertar dos seus fantasmas, das suas correntes. Ao prender o outro você está se prendendo também. Quando eu entendi que retendo estava mais perdendo do que ganhando, eu me vi só. A solidão toma conta quando você tenta puramente dominar uma situação, tentar controlar é a total falta de habilidade em viver se manifestando. A vida está aí para ser sentida e por mais doloroso que seja uma perda ela se faz necessária ser sentida para uma evolução, precisamos passar de fase e isso são em todos os campos, precisamos de um crescimento emocional e este se dá através da dor, de se permitir sentir a dor para transpassamos ao que é devido ao espírito. Fazermos de tudo para mantermos algo ao nosso alcance é contentando ao visível, ao tato, ao corpo. Se eu quiser ter sucesso profissional, tenho que traçar um caminho e ainda assim posso não ter a competência para alcançar, mas é o que eu posso fazer e isso já alimenta ou deve alimentar a minha busca. Posso procurar por oportunidades e devo, mas não forçar ou usar de métodos questionáveis. Se você ama alguém deve querer o melhor para ele/ela e isso ser visto quando você liberta.


Amor implica em doação, o encontro não é do corpo, o encontro se dá entre energias semelhantes e a forma em como são sentidas são a forma de ser mantida próxima de nós. Forçar uma relação só nos traz aquilo que não é para nós. Não dá para forçar sentimentos, eles são espontâneos em si mesmos e essa é sua impressão singular, a naturalidade como acontece. A magia está em deixar acontecer a vida. Parar de ficar procurando tanto pode ser o melhor caminho para encontrar aquilo que realmente se deseja.

Ao invocar o espírito da filha, Annie conjurou o mal para sua família e para si mesma. Vamos pensar se sabemos mesmo o que estamos pedindo pra nós, nossa visão é muito limitada e sempre há mais na vida. Por mais dolorosa que seja a dor, suportá-la é parte da vida e seus aprendizados. Um dia vamos entender porque tudo isso, o porquê de tudo isso, até lá parece sábio termos resignação para sentirmos as dores e superarmos, cada um à sua maneira. Chore trancado no seu quarto, sinta e sinta outra vez, faça tudo para esgotar essa dor dentro de você, ninguém precisa testemunhar esse processo, mas se levante ao final. Não esqueça que a dor teve um dia pra começar e ela precisa ter um dia pra terminar.


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